A revista d'O Globo publicou no último domingo, 27/4, uma matéria sobre designers cariocas que estão sendo contratados por empresas estrangeiras. O que parece ser uma coisa legal, na verdade acaba mostrando o quão mal está o mercado de design do Rio. O modo como o texto foi escrito engana, mas é só ler com atenção e associar as características apontadas na reportagem com o cotidiano dos escritórios, que você chegará à mesma conclusão que eu. Ou será que eu ando paranóico?
Pra começar, afirma-se que "nossos designers costumam ser mais baratos e mais rápidos do que os concorrentes". Esse negócio mão-de-obra barata por si só já ofende (queria ver como os jornalistas reagiriam se alguém escrevesse o mesmo sobre eles). Se somos mais baratos, é porque existe o péssimo hábito entre os empregadores de não dar o devido valor aos seus funcionários. É muito comum vermos por aí escritórios com um grande número de estagiários e recém-formados que trabalham como gente grande por salários de gente pequena, enquanto profissionais experientes geralmente têm uma dificuldade enorme para arrumar um emprego onde recebam salário justo. Pagar, por exemplo, seis salários mínimos a meia dúzia de escraviários é muito mais vantajoso do que dar essa grana toda para um ou dois sujeitos, por melhores que eles sejam. O mercado e a profissão que se danem.
Sobre ser mais rápido, isso praticamente decorre do fato descrito no parágrafo acima: mais gente no escritório, mais trabalhos sendo feitos ao mesmo tempo. Além disso, como eu costumo falar aos meus colegas, o grande problema dos designers é quando eles deixam de ser designers e viram empresários. Muitos simplesmente esquecem tudo o que aprenderam na faculdade e passam a se preocupar apenas com as finanças. Abrem as pernas pros clientes e aceitam trabalhos com prazos absurdos e preços idem - "se eu não aceitar, o concorrente aceita e ganha o cliente (que se dá bem no fim das contas)" -, o que acaba se tornando hábito e até resulta numa boa quantidade de contratos, mas também transforma a empresa em uma grande bagunça, porque o tempo pra resolver tudo nunca é suficiente e aquela velha história de pesquisa e projeto vai por água abaixo, ao mesmo tempo em que os funcionários baratos viram noites para dar conta do recado. Mais uma vez, o mercado e a profissão que se danem.
Só pra deixar claro, não sei se essa coisa toda acontece nas empresas citadas na matéria, até porque nunca trabalhei em nenhuma delas, mas é impossível não fazer tal relação, pois quem está no mercado sabe que essas características são muito, muito fáceis de encontrar.
Continuando... Já que eu toquei no assunto, é interessante notar que os nomes que aparecem na revista são nada mais, nada menos do que OS MESMOS que sempre aparecem em qualquer reportagem sobre design carioca (você sabe quais são), o que nos leva a concluir que o mercado do Rio, apesar das centenas de novos profissionais que se formam a cada ano, desde que o curso de desenho industrial virou moda na década passada, não se renova. E aí? É panelinha ou é a qualidade do ensino que está cada vez pior, lançando no mercado pessoas sem capacidade? Ou seria as duas coisas? Eu juro que não sei responder.
Enfim, independente do objetivo da matéria, ela não deixa de dar uma visão equivocada sobre o que está acontecendo na área. Da mesma forma que nos anos 1990 houve uma popularização do design (gráfico, principalmente) devido ao crescimento da informática, que fez com que muita gente que "desenha muito bem", "gosta de computador" ou não sabia o que fazer da vida ingressasse nas faculdades ou nos cursos picaretas que apareceram, enaltecer dessa maneira o fato de alguns designers estarem fazendo trabalhos para fora do país pode dar falsas esperanças a jovens que "gostam de desenhar no computador" ou que não se encaixam em carreira alguma. Vale lembrar que a grande maioria dos designers da reportagem está há décadas no mercado (que, novamente, encontra-se muito ruim e praticamente sem se renovar. A quantidade de pessoas que desiste e procura outra profissão - mesmo que contra a sua vontade - é tão grande quanto a de novos profissionais), e portanto não é de se estranhar que consigam algum reconhecimento internacional. Mas, não esqueça: é uma MINORIA. Não é coisa corriqueira. Design é muito legal para quem gosta e tem disposição para encarar essas dificuldades, que não são exclusividades suas, claro; mas não confunda as coisas. Se você gosta dos efeitos que o Photoshop faz e acredita que pode ganhar um bom dinheiro com isso, cuidado. É preciso um pouco mais.
Ah, sim... e ainda escreveram "logomarca" na chamada de capa!
Elisha Cook Jr. Gets the Shaft Again #6
3 horas atrás

2 comentários:
"e ainda escreveram "logomarca" na chamada de capa!"
haha essa tinha passado batido por mim.
...
Agora, indo ao seu texto, a maioria dos que apareceram na revista pode ser de profissionais tarimbados, mas há alguns que foram meus colegas de classe. E eu não estou tão velho assim. Pois bem, até concordo que o design está com uma dificuldade de se renovar, mas isso se deve a uma formação inicial esquisita também. Pau que nasce torto é phoda. Não quero deixar uma impressão ruim, nem de uma, nem de outra geração. Para mim, esses caras antigos da reportagem são mais sobreviventes do que uma panelinha. O mercado também pode ser cruel com as panelinhas, eliminando quem não cria, não produz bem, essas coisas. Os caras mais novos, enfim, estão tentando. Também acho que a situação da nossa atividade está meio ruim, mas a conjuntura geral não está sendo das mais fáceis para ninguém. É aquele papo: ninguém tem mais emprego, tem trabalho...
O mundo está mais dinâmico e fomos criados por uma geração que não soube o que é isso, não soube nos preparar, informar. Isso inclui não apenas os pais, mas nossos professores. Fomos criados numa transição, o que foi mais difícil para a gente, que tivemos de nos adaptar meio na marra.
Só para fechar, acho que vender a um preço mais baixo é também uma estratégia (fica mais fácil atrair clientes desconhecidos, para depois fidelizar e crescer). Não é apenas uma degeneração, principalmente para um setor incipiente de serviços.
Abração,
Desculpa, Igor, mas num mercado pega-pra-capar como o do design, vender a um preço mais baixo não é estratégia para fidelizar e crescer coisa nenhuma, é uma armadilha primária que está levando a categoria profissional à autodestruição em massa. É uma estupidez porque na real você nunca vai conseguir elevar os preços depois de pegar o cliente pelo que pediu inicialmente. Se você aumentar, ele não terá nenhum pudor em procurar um concorrente atrás de mais desconto ainda, dizendo "olha, aquele cara pediu tanto". É uma espiral infernal desvalorizadora que tem condenado a todos. E começa com apenas um designer que não se dá valor. Cansei de ver agências talentosas e com cara de futuro ganhando corpo, virando pastelarias do design e falindo de repente no ano seguinte sem entenderem sequer o que foi que deu errado. Passei pessoalmente por duas delas em dois anos. Vamos parar de dar tiros no pé ou assumamos que somos outra coisa e não designers. Eu estou tirando o time de campo, não por vontade própria, e estou com muita raiva.
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