quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um conto de natal

95% dos meus natais (?) eu passei em Niterói, onde a família da minha mãe mora. Ontem (na verdade, na madrugada de hoje), voltando da ceia, vi uma menina andando sozinha de patins em plena Av. Moreira César (uma espécie de Visconde de Pirajá de Niterói). Ela carregava um par de sandálias nas mãos, então pensei se estava atrasada indo para a sua ceia ou mesmo voltando dela. De qualquer forma, foi uma cena curiosa. Como se não bastasse, quando o táxi chegou na praia de Icaraí eu vi um moleque andando de skate sozinho na ciclovia. Achei melhor não deduzir mais nada.
Isso tudo me lembrou que, quando eu era criança, achava que Niterói era uma terra de gente bizarra, cheia de personagens loucos. Não me entendam mal, adoro Niterói, mas, sempre que eu ia passar uns dias na casa da minha vó, os meus amigos de lá tinham algum maluco novo pra me mostrar. "Pô, vamos chegar ali, que você tem que ver esse cara!". Tinha o Correotz, por exemplo, um vendedor de loterias que andava por lá oferecendo a sua mercadoria aos berros. Ao invés de gritar "corre hoje!", ele soltava "CORREOOOOOOOOOOOOTZ!!!" e acabou sendo apelidado assim pelos meus amigos. Quando a gente sabia que ele estava por perto, corria até lá só pra ouvir e ficar rindo.
Tinha o Rogerinho também, bizarro ao extremo. Um cara meio Gugu Liberato para quem a galera vivia fazendo perguntas idiotas e ele respondia normalmente, sem perceber que estava sendo sacaneado. Na verdade tratava-se de alguém com problemas mentais e o pessoal era maldoso, mas mesmo assim a situação toda era muito bizarra, veja por quê: ele chegava e alguém perguntava "e aí, Rogerinho, tudo bem?", e ele respondia "tudo bem". Aí vinha outro, "tudo bem?", "tudo bem"; e mais um, "tudo bem?", "tudo bem", e mais outro... Então perguntavam "Rogerinho, quantas vezes você já deu?", e ele "29", e todo mundo caía na gargalhada. Cinco minutos depois perguntavam de novo e ele dizia "34", e assim a coisa seguia. Tinha mais umas duas ou três perguntas que faziam parte do roteiro, mas perguntar quantas vezes ele já tinha dado era a principal. Eu nunca soube como é que começou essa história, mas a última vez que eu vi alguém perguntando (há uns vinte anos atrás) ele já tinha dado mais de duzentas vezes. Bizarro pra cacete.
Porém, o personagem mais clássico era o Velho Maluco da rua da minha vó, a Belizário Augusto. O último quarteirão dessa rua tem uma pedreira no final, então ele acaba virando uma espécie de vila, porque não tem saída e todo mundo se conhece. O Velho Maluco ficava indo e voltando da esquina até a pedreira e nunca falava com ninguém. Ele andava junto aos muros dos prédios e, uma vez, tinha uns latões de lixo encostados em um deles. Ao invés de se desviar, o Velho tirou um a um os latões da sua frente e os colocou de volta no lugar, depois continuou a sua caminhada. Rolava uma lenda urbana sobre o Velho Maluco que dizia que não se podia perguntar as horas pra ele, senão ele se emputecia e enchia a pessoa de porrada. A molecada da rua ficava sempre de olho no seu vai-e-vem, falando da tal lenda. Alguns acreditavam, outros não, e, naturalmente, surgiu a vontade de tirar a prova, mas nunca aparecia alguém com coragem.
Até que, num final-de-semana qualquer, eu cheguei em Niterói e logo vieram me falar: "Cara, você não sabe da maior! Perguntamos as horas pro Velho Maluco!!!". O negócio foi mais ou menos assim: lá estava o Velho andando pra lá e pra cá e os garotos por perto, comentando. Toda galerinha que se preze tem aquele moleque que é magrinho e menor que todo mundo, mas não menos abusado, vocês sabem. Pois bem, o nosso representante desta classe se encorajou e foi até o corôa:
- Moço, que horas são?
O que me disseram foi que o Velho começou a rosnar feito um rottweiler e saiu correndo atrás da galera, que se dividiu entre os que riam e os que choravam. No meio da correria, um amigo meu que não tinha nada a ver com a história (pelo menos nesse episódio) estava saindo do seu prédio e deu de cara com a fuga em massa. Ele parou e ficou olhando pra onde o pessoal corria, e então o Velho Maluco veio por trás e deu um belo de um chute na sua coxa, fazendo-o voar alguns metros. O meu amigo se levantou e saiu correndo mancando, embora ainda não soubesse por quê fazia isso, enquanto a galera parava de correr e decretava o fim da divisão entre os que choravam e os que riam, pois todos estavam se acabando de rir.
Enquanto isso, o Velho dava meia volta para continuar com o seu vai-e-vem sagrado... E nunca mais lhe perguntaram as horas.
Um feliz natal pra todo mundo!

2 comentários:

João Lelo disse...

que bosta de conto de natal... espero que seu natal tenha sido mais divertido que isso

hahahahaha

abs!!

.

Bolinho disse...

rapaz, não. É Test Icicles ou só Icicles mesmo?